A POESIA PARA COMEÇAR E ACABAR BEM O DIA" Aldina Duarte

27.11.09

"Un Grand Sommeil Noir"



Sono escuro, enorme,
A cobrir-me a vida:
Dorme, esperança, dorme.
Tão apetecida!

Não vejo ninguém,
Já perco a memória
Do mal e do bem...
Ai que triste história!

No fundo da vala,
O berço que sou
Alguém mo embala:
Caluda, calou!

Poema: Paul Verlaine
Fotografia: A. Massa

26.11.09

Augúrio De Inocência



Num grão de areia o mundo inteiro ver
E numa flor do campo o firmamento -
Todo o Infinito em tua mão conter
E ter a Eternidade num momento.

Poema: William Blake
Fotografia: Vladimir Funtak

25.11.09

Meu Coração



Na terra, uma semente pequenina
Abre, ao sol, em sorrisos de verdura.
E o rubro raio aceso que fulmina
Rasga o seio da nuvem que é ternura.

Ao longo de erna e pálida colina,
Um doce fio de água anda à procura
De alguma rosa angélica e divina,
Abandonada e morta secura.

Mei forte coração também nasceu
Para criar, cantando, um novo céu.
Ninguém lhe entende a mística harmonia!

Lembra remota estrela desmaiada
Que mal se vê, na abóbada azulada,
Mas, para um outro mundo, é grande dia.

Poema: Teixeira de Pascoaes
Fotografia: Ruud Albers

24.11.09

Despertar



É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.

Poema: Eugénio de Andrade
Fotografia: Milena Galchina

23.11.09

Consolo Na Praia



Vamos, não chores
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te - de vez - nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Poema: Carlos Drummond de Andrade
Fotografia: Roger Swieringa

16.11.09

Canção Infantil



Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto
um ribeiro.

Tudo tão parado.
Que devia fazer?
Meti tudo no bolso
para os não perder.

Poema: Eugénio de Andrade
Fotografia: Madeleine Guenette

14.11.09

MARISA MONTE